Quando as três comportas estão abertas e há fluxo contínuo pelos canais que conectam o sistema da Lagoa Rodrigo de Freitas, o Leblon fica hidraulicamente circundado por água, funcionando, em termos topológicos, como uma ilha. As três comportas são a Comporta do Jardim de Alah, localizada no canal que separa Leblon e Ipanema e estabelece a comunicação da Lagoa Rodrigo de Freitas com o Oceano Atlântico; a Comporta da Avenida Visconde de Albuquerque, situada no final do canal da avenida, junto à Praia do Leblon; e a Comporta da Rua General Garzon, instalada no final desse canal, junto à Rua Borges de Medeiros, recebendo as águas dos rios dos Macacos e Cabeça e, conforme as condições de fluxo, as águas do Canal do Jóquei. (Rio de Janeiro)
O desenho hidráulico do Leblon
A peculiaridade geográfica do Leblon fica mais clara quando se deixa de olhar apenas para as ruas e passa-se a observar a rede hidrográfica que circunda o bairro. Ao sul está o Oceano Atlântico; ao norte, a Lagoa Rodrigo de Freitas; a leste, o Canal do Jardim de Alah; e, a oeste, o sistema formado pelo Canal do Jóquei e pelo Canal da Avenida Visconde de Albuquerque, que conduz as águas do Rio Rainha até o mar.
Essa configuração não é apenas uma interpretação visual do mapa. O Plano de Gestão Ambiental da Lagoa Rodrigo de Freitas registra que a bacia possui três comportas — nas ruas General Garzon e Avenida Visconde de Albuquerque e no Canal do Jardim de Alah — e que elas integram o sistema de controle hidráulico da Lagoa. (Rio de Janeiro)
O Comitê da Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara também descreve o sistema atual como constituído pelas três comportas. Segundo o diagnóstico do Plano de Recursos Hídricos, a principal ligação da Lagoa com o mar ocorre pelo Jardim de Alah, enquanto o Canal da Visconde de Albuquerque se liga ao Rio Rainha e também alcança o mar. (CBH)
A Comporta do Jardim de Alah
A Comporta do Jardim de Alah está situada na ligação entre a Lagoa e o mar, exatamente na região entre as praias de Ipanema e Leblon. O canal possui aproximadamente 800 metros de extensão e constitui a principal comunicação hidráulica entre a Lagoa e o Oceano Atlântico. Sua comporta pode ser utilizada tanto para controlar o nível da Lagoa quanto para permitir a entrada de água do mar. (CBH)
Essa ligação é fundamental para entender a ideia de “ilha”. Quando existe fluxo pelo Jardim de Alah, a água estabelece uma conexão entre a Lagoa, de um lado, e o oceano, de outro. O canal, portanto, constitui o limite hidráulico oriental do Leblon.
Há ainda uma particularidade: a foz do Jardim de Alah sofre assoreamento provocado pela dinâmica costeira e precisa ser periodicamente dragada para manter condições adequadas de escoamento. (CBH)
A Comporta da Visconde de Albuquerque
No extremo oeste do sistema está a Comporta da Avenida Visconde de Albuquerque, localizada junto à Praia do Leblon. O canal recebe as águas do Rio Rainha, que nasce no Maciço da Tijuca, atravessa a Gávea e chega ao Leblon.
Historicamente, o Rio Rainha tinha outro destino: até a década de 1920, ele desaguava na Lagoa Rodrigo de Freitas. Durante as obras de canalização realizadas no período do prefeito Carlos Sampaio, seu curso foi desviado para o Canal da Avenida Visconde de Albuquerque, fazendo com que suas águas passassem a ser conduzidas em direção ao mar. (FAPERJ)
Em tempo seco, a comporta da Visconde de Albuquerque permanece fechada e a água é encaminhada para uma elevatória, que a conduz ao sistema de esgotamento sanitário e ao emissário de Ipanema. Em episódios de chuva, entretanto, a comporta pode ser aberta para permitir o deságue do Rio Rainha no mar. (Rio de Janeiro)
É essa estrutura que constitui o limite hidráulico ocidental do Leblon.
A Comporta da General Garzon
A terceira peça é a Comporta da Rua General Garzon, situada na região da Lagoa, junto à Rua Borges de Medeiros. Ela recebe águas provenientes dos rios dos Macacos e Cabeça, através do sistema de canais da região, além de poder receber águas do Canal do Jóquei dependendo do sentido e do volume do fluxo. (Ambiente Clima)
Em condições normais de tempo seco, essa comporta permanece fechada. Em eventos de chuva, ela pode ser aberta, depois da abertura da comporta da Visconde de Albuquerque, permitindo que as águas dos rios Macacos e Cabeça sigam para a Lagoa e evitando que o sistema do Rio Rainha descarregue inadequadamente para dentro da Lagoa. (Rio de Janeiro)
O Canal do Jóquei tem papel importante nessa configuração porque funciona como uma espécie de ponte hidráulica entre os dois sistemas. Há registros técnicos de que, em determinados regimes de operação, a água pode entrar pelo Jardim de Alah e posteriormente sair pelo sistema General Garzon → Canal do Jóquei → Visconde de Albuquerque → mar. (Livros Grátis)
O circuito de água
É aqui que a imagem que você trouxe fica especialmente interessante.
Em uma determinada configuração de operação, pode-se ter, esquematicamente:
Oceano Atlântico → Jardim de Alah → Lagoa Rodrigo de Freitas → General Garzon → Canal do Jóquei → Visconde de Albuquerque → Oceano Atlântico.
Ou, em outro regime, a água doce proveniente dos rios pode seguir:
Rio dos Macacos + Rio Cabeça → General Garzon → Lagoa → Jardim de Alah → mar.
Enquanto isso, o Rio Rainha possui seu próprio caminho:
Gávea → Rio Rainha → Canal da Visconde de Albuquerque → mar.
O Plano de Gestão Ambiental de 2013 descreve justamente a operação conjunta das comportas da Visconde de Albuquerque e da General Garzon durante eventos de precipitação. Nessa situação, há aporte de água doce dos rios Macacos, Cabeça e Rainha para o sistema e a vazão que chega ao mar pode variar conforme maré, ressaca, altura das ondas e níveis de água. (Scribd)
Então o Leblon é uma ilha?
Aqui é importante fazer uma distinção entre ilha geográfica e ilha hidráulica.
Geograficamente e juridicamente, o Leblon continua sendo um bairro continental do Rio de Janeiro. Não existe hoje um corpo de água permanentemente aberto formando uma ilha no sentido convencional.
Mas, quando consideramos a configuração dos canais e há fluxo contínuo de água nos trechos que fecham o circuito, a situação topológica é diferente: existe água ao sul, ao norte, a leste e a oeste do território do bairro.
Por isso, a expressão “ilha hidráulica” é uma maneira bastante precisa de descrever o fenômeno, desde que se deixe claro que estamos falando de uma configuração condicionada ao regime de funcionamento do sistema, e não de uma ilha permanente.
Curiosamente, essa ideia aparece também em descrições históricas e culturais do próprio Leblon. Há registros que descrevem o bairro como uma ilha delimitada pelo mar, pela Lagoa, pelo Jardim de Alah e pelo Canal da Visconde de Albuquerque. (copacabana.com)
Isso não é uma coincidência: estava no projeto original
E aqui está talvez a informação mais fascinante de toda essa história.
Em 1921, o engenheiro Saturnino de Brito elaborou um projeto de saneamento da Lagoa que previa dois canais de comunicação da Lagoa com o mar: um era o atual Canal do Jardim de Alah; o outro atravessaria o Hipódromo, percorreria a Avenida Visconde de Albuquerque e chegaria ao mar junto ao costão do Vidigal.
O projeto previa uma comporta na boca de cada canal e outra na entrada do canal interceptor, permitindo, mediante a operação adequada e o aproveitamento do fluxo e refluxo das marés, que a água do mar entrasse na Lagoa pelos dois canais e que a água da Lagoa pudesse sair para o mar. (Rio de Janeiro)
Portanto, a configuração que hoje parece uma curiosidade cartográfica tem uma origem deliberada: o sistema foi concebido para criar uma circulação hidráulica entre mar, Lagoa e canais do Leblon/Gávea.
Com o tempo, porém, o crescimento urbano, o assoreamento, os aterros, a redução da seção do Jardim de Alah e outras alterações modificaram profundamente o funcionamento previsto originalmente. O próprio plano municipal registra que o sistema inicialmente funcionou bem, mas perdeu eficiência em razão dessas transformações. (Rio de Janeiro)
O que acontece quando as três comportas funcionam conjuntamente?
A operação não é simplesmente “abrir as três e pronto”. As comportas são instrumentos de gestão hidráulica. Em tempo seco, as comportas da Visconde de Albuquerque e da General Garzon normalmente permanecem fechadas para impedir que águas potencialmente contaminadas dos rios cheguem à Lagoa. Quando começam as chuvas, elas podem ser abertas de forma sequencial, levando em consideração os níveis da Lagoa, dos canais, a qualidade da água, a maré e a possibilidade de ressaca. (Scribd)
É justamente por isso que a frase inicial precisa conter as duas condições: as comportas estarem abertas e existir fluxo contínuo. Uma comporta aberta, isoladamente, não transforma o território em uma ilha. É a continuidade hidráulica do circuito que produz esse efeito.
Assim, a maneira mais rigorosa de resumir tudo é:
Quando as três comportas — Jardim de Alah, no canal entre Ipanema e Leblon; Visconde de Albuquerque, junto à Praia do Leblon; e General Garzon, junto à Rua Borges de Medeiros — estão abertas e existe fluxo contínuo pelos canais que conectam o sistema, a água estabelece um circuito entre o mar, a Lagoa e os canais que delimitam o bairro. Nessa configuração, o Leblon fica hidraulicamente circundado por água, funcionando, em termos topológicos, como uma ilha.
E é justamente isso que torna aquela imagem que você encontrou tão reveladora: ela não está apenas mostrando uma bacia hidrográfica. Ela está mostrando o esqueleto de um sistema hidráulico que, sob determinadas condições de operação, envolve o Leblon por água.
Fontes e links
Prefeitura do Rio — Atualização do Plano de Gestão Ambiental da Lagoa Rodrigo de Freitas (2013). Documento técnico fundamental: descreve as três comportas, sua localização, operação, o projeto de Saturnino de Brito e os fluxos entre Lagoa, rios e mar.
URL: https://www.rio.rj.gov.br/documents/91265/2972533/10%2B-%2BRIOAGUAS%2B-%2BPlano%2Bde%2BGest%C3%A3o%2BAmbiental%2Bda%2BLagoa%2BRodrigo%2Bde%2BFreitas%2B-2013 (Rio de Janeiro)
Prefeitura do Rio — Plano de Contingências e Monitoramento da Lagoa Rodrigo de Freitas (2010). Mostra a localização das três comportas e explica a operação da Visconde de Albuquerque e da General Garzon.
URL: https://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/2972533/DLFE-245315.pdf/1.0 (Rio de Janeiro)
Prefeitura do Rio — Plano de Contingências e Monitoramento (2012). Detalha o funcionamento das comportas durante chuva e tempo seco.
URL: https://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/2972533/DLFE-245314.pdf/1.0 (Rio de Janeiro)
Prefeitura do Rio — Decreto/Plano Municipal de Contingência da Lagoa Rodrigo de Freitas. Traz informações sobre a localização e o manejo das comportas, incluindo a General Garzon.
URL: https://ambienteclima.prefeitura.rio/wp-content/uploads/sites/81/2024/11/Dec-42675_2016.pdf (Ambiente Clima)
Comitê da Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara — Plano de Recursos Hídricos. Descreve as três comportas e caracteriza as ligações da Lagoa com o mar.
URL: https://comitebaiadeguanabara.org.br/wp-content/uploads/2022/11/RP-02-Diagnostico-TOMO-II-Plano-de-Recursos-Hidricos.pdf (CBH)
Comitê da Baía de Guanabara — relatório sobre a Bacia da Lagoa Rodrigo de Freitas. Afirma que a Lagoa está ligada ao mar pelos canais do Jardim de Alah e da Rua Visconde de Albuquerque.
URL: https://comitebaiadeguanabara.org.br/wp-content/uploads/2025/09/Relatorio-41.pdf (CBH)
Prefeitura do Rio — APAC Leblon / Canal da Visconde de Albuquerque. Documento histórico-patrimonial sobre o canal, incluindo sua relação com o mar e a instalação da comporta.
URL: https://www0.rio.rj.gov.br/patrimonio/apac/anexos/leblon_textos.pdf (Prefeitura do Rio de Janeiro)
Prefeitura do Rio — Avenida Visconde de Albuquerque, 862. Cadastro patrimonial que contextualiza as obras de saneamento e a comunicação da Lagoa com o mar.
URL: https://www0.rio.rj.gov.br/patrimonio/apac/anexos/bens_tomb_leblon/visconde_albuquerque_862.pdf (Prefeitura do Rio de Janeiro)
FAPERJ — História recente do Rio Rainha. Explica que o Rio Rainha originalmente desaguava na Lagoa e, na década de 1920, passou a desaguar no Canal da Visconde de Albuquerque.
URL: https://www.faperj.br/?id=880.7.2 (FAPERJ)
SciELO — estudo sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas. Aborda a conexão da Lagoa com o Atlântico pelo Jardim de Alah e o papel do canal interceptor da Visconde de Albuquerque.
URL: https://www.scielo.br/j/bjm/a/Xc3pHScwFpkKsSk6gBWptWC/ (SciELO Brasil)
FAPERJ — pesquisa sobre monitoramento da Lagoa. Aborda os rios da bacia, as comportas e a possibilidade de controlar os fluxos mediante abertura e fechamento das comportas.
URL: https://siteantigo.faperj.br/?id=918.2.3 (FAPERJ)
Copacabana.com — História do Leblon. Fonte histórica/cultural que descreve explicitamente o Leblon como uma ilha delimitada pelo mar, Lagoa, Jardim de Alah e Visconde de Albuquerque.
URL: https://copacabana.com/historia-do-leblon (copacabana.com)
Alma Carioca — O Antigo Leblon. Registro histórico-cultural que também descreve o Leblon como uma ilha e identifica os canais que o delimitam.
URL: https://almacarioca.wordpress.com/2012/12/26/rio-antigo-7-o-antigo-leblon/ (Alma Carioca)
Estudo “Evolução dos aportes de metais pesados na Lagoa Rodrigo de Freitas”. Traz uma descrição particularmente interessante do circuito Jardim de Alah → Lagoa → General Garzon → Canal do Jóquei → Visconde de Albuquerque → mar.
URL: https://www.livrosgratis.com.br/ler-livro-online-33793/evolucao-dos-aportes-de-metais-pesados-na-lagoa-rodrigo-de-freitas-rj (Livros Grátis)
- c.a.t. via ChatGPT -
Link curto: https://bit.ly/a_ilha_do_leblon
